DIÁRIO DE UMA BANDA GÁSTRICA
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22/02/2007
Dez dias depois...
Os primeiros resultados são muito animadores!

Voltei hoje a consultar com o Dr. Sigfried Boettcher, passados dez dias da colocação da nova banda gástrica depois que a anterior apresentou problemas - isso depois de quase três anos de uso, é bom ressaltar. Segundo o Dr. Sigfried, problemas como os que ocorreram na minha banda são incomuns e ele ficou contente com os resultados desse segundo procedimento até agora: no dia da cirurgia eu estava com 126,5 kg, hoje estou com 121,2 kg!

Decerto que esse primeiro mês de dieta líquida é o período onde se dá a maior perda de peso, por conta mesmo do tipo de alimentação: 100ml de alimentos líquidos - sopas, caldos, sucos (nada ácido ou cítrico), gelatina líquida, iogurte líquido - com intervalos de pelo menos uma hora entre as refeições. Mas essa perda inicial de peso precisa ser aproveitada pelo paciente de banda gástrica como um incentivo inicial para que ele prossiga nos demais cuidados que devem sempre vir junto com a cirurgia - um programa de exercícios físicos que recupere a capacidade do organismo e uma reeducação alimentar que o permita ingressar em uma nova vida. Talvez seja essa a parte mais difícil do tratamento: mudar a cabeça, alterar os hábitos, passar a pensar como aqueles que não vêem na alimentação uma compensação ou um prêmio para o que de ruim ou de bom acontece em nossas vidas. Mas a perda de peso inicial, e tão rapidamente alcançada, precisa servir de estímulo para as conquistas posteriores, mais lentas e difíceis. Já passei por isso, sei como é difícil. Mas estou disposto a tentar novamente, até conseguir mudar minha forma de ver a vida - e ser visto por ela...


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15/02/2007
Ano novo, banda nova

Quando as coisas não vão bem, não se pode demorar para acertá-las - como eu, aliás, fiz...

Semana passada retornei ao consultório do Dr. Sigfried, meu cirurgião, com os resultados da longa bateria de exames que ele nos prescreveu, a mim e a Tatiana, para saber como estávamos e que procedimentos tomar diante do que reportamos a ele - o fato de que nenhum dos dois estávamos mais sentindo os efeitos de saciedade que a banda gástrica deveria nos proporcionar e voltávamos a ganhar peso.

Os exames mostraram que nossos níveis de colesterol, triglicerídeos, glicose no sangue, ácido úrico e outros tantos fatores que os exames de sangue indicam estão todos ótimos, ou seja, somos pessoas com sobrepeso, mas saudáveis.  A endoscopia deu o primeiro alerta: ambos temos uma leve gastrite, algo normal na maioria das pessoas, mas no meu caso a endoscopia já indicava um posicionamento incomum da banda gástrica e a ausência da ante-câmara que ela deveria criar no estômago - algo como uma ampulheta, ou seja, a banda estava alta demais e não oferecia a sensação de saciedade justamente por não mais servir como obstáculo para a alimentação.  A radiografia abdominal foi que mostrou, de fato, o que acontecia: minha banda gástrica simplesmente virou - o portal, por onde são feitos os ajustes ambulatoriais por meio da injeção de soro fisiológico no interior da banda, estava voltado para dentro!

O resultado foi que, em 13 de fevereiro de 2007, Tatiana passou por mais um ajuste da banda gástrica - simples, ambulatorial e apenas sob leve sedação, que a permitiu inclusive voltar naquele mesmo dia dirigindo para casa.  O meu caso foi totalmente diverso: o procedimento foi sob anestesia geral e o Dr. Sigfried, primeiramente, testou a banda já instalada e constatou que ela havia se rompido, ou seja, estava com vazamento e por isso já não atendia aos propósitos do tratamento; com isso, ele retirou a banda anterior e colocou uma nova banda, desta vez americana e com um novo sistema, mais moderno, de ajuste e de fixação nas paredes externas do estômago.  Com isso, é como se eu retornasse àquele primeiro procedimento de quatro anos atrás - dieta líquida de 100ml a cada hora, por um mês; depois, mais uns dias de dieta pastosa e, enfim...todo o processo novamente.  Por sorte, fiquei apenas uma noite internado no hospital e, como não apresentei náuseas ou maiores complicaçõeso u dores, consegui que o meu cirurgião me desse alta ainda ontem.

Estou assumindo esta nova "banda gástrica" como uma nova chance.  Talvez agora, já tendo passado por tanta coisa como portador de banda gástrica, eu consiga levar com mais seriedade o tratamento e obter o emagrecimento sonhado.  Da primeira vez que coloquei a banda gástrica, eu pesava 134kg.  Emagreci até 108kg, tive complicações, demorei a buscar aconselhamento médico e antes de ontem, dia da nova cirurgia, estava pesando 125kg.  Vamos ver a partir de agora, nesse novo recomeço, que resultados irei atingir.

Torçam por mim, uma vez mais.


Registrado por Robertson Frizero Barros at 15:46 BRT
Updated: 22/02/2007 11:51 BRT
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09/02/2007
A banda virou

Acabo de voltar do consultório de meu excelente cirurgião, Dr. Sigfried Boettcher.  Depois de uma consulta realizada semana passada, ele encaminhou-nos, a mim e à minha esposa, para uma bateria de exames de sangue, urina, radiografia e endoscopia... Hejo levamos os resultados para ele e, enfim, ficamos sabendo o que se passa com cada um de nós para que a banda não esteja mais oferecendo o efeito desejado.

No caso de Tatiana, é apenas uma questão de mais um ajuste.  A banda está posicionada corretamente, a endoscopia mostrou que tudo está normal e, tirando umas pequenas alterações no exame de sangue, ela só precisará de um simples ajuste ambulatorial. 

No meu caso, a situação é mais complicada.  Já desde o último ajuste o Dr. Sigfried estava desconfiado de que não havia conseguido fazer a infiltração de soro fisiológico e obtido o inchamento da banda normalmente.  Por algum tempo, pensamos que a banda poderia estar apresentando algum vazamento.  A radiografia e a endoscopia dessa última semana mostraram que, na verdade, a minha banda gástrica VIROU - simplesmente o portal está na posição contrária ao que deveria estar e, por isso, o Dr. Sigfried não conseguia encontrá-lo cá dentro... Com a "torção" que a banda apresenta, simplesmente meu estômago não tinha a "antecâmara" que se forma com a banda gástrica, o efeito "ampulheta" que dela se espera - por isso eu muitas vezes não conseguia me alimentar direito, mesmo sem ter a sensação de saciedade que a banda deveria proporcionar.  O resultado é que na próxima terça-feira, dia 13 de fevereiro de 2007. serei submetido a uma cirurgia para verificação do estado da banda gástrica e, se preciso for, sua substituição por uma nova banda.

Surpreendentemente, meu plano de saúde não colocou nenhuma objeção no novo procedimento, que foi liberado em um tempo recorde de quinze minutos - da primeira vez, passamos por uma demorada perícia e o médico de então chegou a questionar se eu e minha esposa realmente precisávamos daquele tratamento, mesmo diante de todas as evidências... Agora é esperar pelos resultados do procedimento da próxima semana.  Se a banda for trocada, será como se tudo recomeçasse do zero - um mês de líqüidos, depois comidas pastosas e... bem, o Dr. Sigfried disse que, ao menos, os períodos que precisarei manter esses "passos" restritivos serão menores.  Mas torço para que o esforço de me submeter a uma nova cirurgia possa, dessa vez, me levar de verdade aos meus objetivos.


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26/01/2007
O Peso do Preconceito

Há um tipo de preconceito que tem afastado pessoas capacitadas das melhores posições em diversas companhias, impedido bons alunos de ingressar nas melhores universidades, determinado a percepção de menores salários por parte das mulheres e levado suas vítimas a acumularem menos bens ao longo da vida.  Ao contrário de outras formas de discriminação, que gozam até mesmo de legislação que pune com prisão seus infratores, essa forma de preconceito não é combatida pela sociedade que, muito pelo contrário, alimenta-o diariamente e parece concordar com aqueles que o detém.  Aliás, esse é um tipo de preconceito que, inversamente ao que acontece com a discriminação racial, social ou étnica, não gera nenhum tipo de constrangimento ao ser assumido publicamente.

Em tempos nos quais a beleza parece ser obrigatoriamente vinculada à magreza, a obesidade assume o lugar das características pessoais mais suscetíveis a despertar o preconceito.  Desde 1966 há estudos em países como os Estados Unidos da América - onde o índice de pessoas obesas cresce a cada ano - que mostram aquilo que muitos obesos já conhecem na prática: as pessoas com sobrepeso são vítimas de preconceito, têm maior dificuldade em conseguir empregos - sendo geralmente eliminadas, no processo de admissão, durante a etapa das entrevistas -, ganham salários menores em comparação aos seus pares não-obesos, pagam mais caro os planos de saúde e os contratos de seguro pessoal e têm maior dificuldade em organizar sua vida amorosa e afetiva.  Um estudo recente, realizado pelo professor de psicologia Brian A. Nosek, da Universidade de Virginia (divulgado pelo jornal The New York Times de 02 de dezembro de 2006), apontou a discriminação contra os obesos como o mais intenso tipo de preconceito na sociedade estadunidense, superando até mesmo os de fundo racial, social e de orientação sexual. 

Ainda que tais dados sejam referentes à realidade norte-americana, há fortes razões para se acreditar que o fenômeno da discriminação contra obesos é um fenômeno que afeta a maioria dos países ocidentais.  O preconceito contra obesos é facilmente observável em nossa sociedade, seja na forma como a obesidade é retratada na ficção, seja na quantidade absurda de informações que são veiculadas - e vendidas, é sempre bom recordar - em revistas, jornais e programas de rádio e televisão, na forma de dicas para combater o excesso de peso à propaganda de soluções cirúrgicas a panacéias medicamentosas para um emagrecimento rápido e milagroso.  Nos comerciais televisivos residem, talvez, as formas mais claras de como o obeso é visto por nossa sociedade: em geral, os gordinhos e gordinhas são usados sempre como o contraponto aos bem-sucedidos magros e magras, fortes e esbeltas; em geral, os primeiros sempre aparecem tomando atitudes idiotas perante as câmeras, ou em situações de frustração por não poderem ser tão bonitos e sortudos como aqueles que não sofrem com o excesso de peso.  O mais curioso é que tais situações não estão restritas às propagandas de produtos dietéticos ou light, roupas ou produtos afins cuja relação direta com o sobrepeso é compreensível.  Recentemente uma famosa fabricante de televisores colocou no ar uma campanha publicitária na qual dos vendedores apanhavam de suas freguesas ao convidá-las a ir até o fundo da loja para ver o novo lançamento em televisores de plasma - claro que o comercial tratava isso com uma frase de duplo sentido e conotação erótica... Curiosamente, ambos os vendedores eram obesos, e a cliente era uma alta e belíssima loira.  Qual será a mensagem contida na peça publicitária, cuja intenção era humorística?  A idéia que reinava subliminarmente é que a mulher, tão bonita e elegante, jamais aceitaria uma cantada de um homem com sobrepeso, muito menos de dois obesos como aqueles, e que estaria em pleno direito de esbofeteá-los em público por conta disso.

Talvez soe como um exagero, mas basta tentar recordar uma situação em que na ficção - seja na programação normal das emissoras de televisão, nos filmes de qualquer gênero ou mesmo nos intervalos comerciais - um personagem obeso ou com sobrepeso tenha sido retratado de forma positiva (excluindo-se Papai Noel, por razões óbvias).  Uma mulher indesejável em termos sexuais, nos filmes e comerciais televisivos, será quase que invariavelmente obesa.  Um homem repugnante, com raríssimas exceções, apresentará um abdômen avantajado e vestirá roupas que parecerão prestes a explodir de seu corpo - como se não existissem, hoje bem mais que no passado, lojas e lojas a vender roupas de tamanhos especiais...  A esse respeito, há um interessantíssimo estudo de três psicólogas - Naumi A. de Vasconcelos, Iana Sudo e Nara Sudo - da UFRJ. intitulado Um peso na alma: o corpo gordo e a mídia,  março de 2004, no qual as pesquisadoras estudaram a forma como foram retratados os obesos em matérias veiculadas nos jornais e revistas brasileiros entre 1995 e 2003.  Elas alertam que a nossa sociedade desenvolveu uma espécie de "lipofobia", um trauma em torno do excesso de peso, causado em grande parte pela falsa associação entre obesidade e falência moral.  O preconceito, que engloba todas as atividades sociais - e por isso afeta os obesos em situações como a procura por um emprego ou a escolha para um cargo de maior relevo dentro de uma empresa -, estabeleceu no imaginário de nossa sociedade a idéia de que o obeso é preguiçoso, moralmente fraco, descuidado, indisciplinado e desleixado, de que alguém com sobrepeso jamais pode ser visto como uma pessoa elegante e bem-sucedida, sexualmente atraente e ativa, realizada no amor e na profissão.  Em outras palavras, o corpo gordo é um sinal visível de violação das normas estabelecidas por nossa sociedade atual, presa à imagem corporal como símbolo maior de ostentação e status - o que, em parte, explica o deslocamento que parece ter ocorrido dos sonhos de sucesso profissional das camadas mais pobres da população, que hoje não mais almejam uma formação profissional adquirida pela educação formal mas, sim, uma vitória social que é associada às conquistas que o corpo pode proporcionar, seja como esportistas, modelos, dançarinos ou outras atividades ligadas à aparência exterior.  Nesse mundo em que ser magro é a meta almejada por tantos, ser gordo é ser, com as devidas proporções, um outsider. Mesmo diante dos exageros que essa cultura da magreza tem gerado - a sucessão de casos de anorexia e bulimia, com vítimas fatais, é um importante sinal -, o corpo gordo é ainda sinal de fracasso e motivo de repulsa. 

A discriminação contra os obesos, que não é nada sutil, parece passar despercebida para a maioria das pessoas - sinal de que o preconceito é, de fato, generalizado e aceito como algo natural.  Gordo, no Brasil, tornou-se palavra ofensiva - quem duvidar, que se recorde do episódio envolvendo o jogador Ronaldo Lazário e o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva - e aqueles que trabalham na mídia e fogem ao padrão estético da magreza estabelecido nos últimos anos parecem ter que aceitar tal denominação e fazer dela razão para uma auto-chacota inexplicável - uma forma de auto-defesa que justificaria, em parte, as piadas de mau gosto e as cenas lamentáveis de discriminação que apresentadores de televisão como Jô Soares, Gilberto Barros, João Gordo e Fausto Silva - este último uma espécie de patrocinador da discriminação contra os obesos no Brasil - promovem com seus convidados que, como eles próprios, também apresentam sobrepeso.  Eles reproduzem, infelizmente, um padrão que existe em toda a sociedade brasileira, que criou para os obesos um esteriótipo de fanfarrão, bom amigo, engraçado e algo boboca.  Espera-se, aliás, do gordinho e da gordinha que eles aceitem de bom grado toda e qualquer referência ou apelido menos elogiosos ao seu excesso de peso corporal.  Quando isso não ocorre, o obeso é taxado de rancoroso, e certamente as conversas sobre sua atitude estarão repletas da palavra gordo acrescida de outros adjetivos nada nobres - afinal, estamos em um país no qual é elogioso dizer a um amigo que ele parece mais magro... 

Tudo o que os obesos desejam é respeito.  Nenhum deles desconhece os perigos da doença chamada obesidade - em verdade, uma situação corporal que pode gerar enfermidades diversas, e não uma doença em si.  As pessoas com sobrepeso, aliás, são talvez as que melhor conheçam o número de calorias dos alimentos, os tipos de dieta que funcionam ou não, as contra-indicações deste ou daquele medicamento milagroso para emagrecer - ao contrário do que parecem pensar as pessoas em geral, que sempre têm uma dica especial para fornecer ao amigo obeso, isso quando não se prestam simplesmente ao ridículo papel de comunicar à pessoa com sobrepeso que ela está precisando perder uns quilinhos, como se o obeso sofresse de algum tipo de retardamento mental que o impedisse de reconhecer isso ao olhar-se no espelho ou ao experimentar uma roupa que já não serve mais... 

Ofender o obeso parece ser a forma encontrada pelos não-obesos (ou não-tão-obesos) de compensar a constatação de que mesmo eles, que não têm um sobrepeso considerável, jamais chegarão ao padrão de beleza apregoado pela mídia, pelos profissionais de beleza, pela indústria da moda e pelos médicos menos éticos - um padrão de beleza que, afinal de contas, hoje reside em adolescentes cada vez mais novas, com um índice de massa corporal preocupante para qualquer profissional de saúde, e em jovens rapazes cuja agenda permite gastar horas e horas de seu dia dentro de uma academia de musculação, não raro recorrendo aos anabolizantes mais destrutivos para ganhar uma massa muscular irreal para a maioria dos seres humanos.  A grande incongruência, aliás, é que essas pessoas associam a obesidade à idéia de doença e, mesmo assim, sentem-se à vontade para discriminar um obeso em público.  Será que eles agem assim também diante de outros tipos de doentes, digamos, uma pessoa com o rosto coberto de ataduras ou alguém com uma perna engessada que mostre uma grande dificuldade de locomoção em plena praça pública?  Mantidas as devidas proporções, obviamente, o tratamento diferenciado mostra que o problema da discriminação contra os obesos é bem mais profundo e infinitamente mais difícil de ser resolvido.  Afinal de contas, as duas últimas situações relatadas são passíveis de ocorrer a qualquer um, mas a obesidade ainda é tratada como uma escolha pessoal do doente, algo de fácil solução, uma mera questão de força de vontade...

Ao invés de se questionar o porquê de o obeso mais próximo ser daquela forma - o que, aliás, deveria ser um problema que preocupasse apenas ao próprio gordinho ou gordinha -, esses pretensos magros deveriam se perguntar até quando pretendem sustentar essa ilusão de que um corpo esbelto é a chave da felicidade.


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18/11/2006
Quatro meses depois

Faz quatro meses que não registro aqui neste que deveria ser um "Diário" o que acontece nessa minha luta contra a obesidade.  Minhas últimas impressões eram muito desanimadoras - descobri-me engordando novamente, e fiquei me questionando sobre a validade, enfim, de ter me submetido ao procedimento de colocação da Banda Gástrica... mas não havia, de fato, razão alguma para eu lamentar ter tomado essa decisão.

Olhando para trás, para o tempo anterior à Banda Gástrica, vejo que muita coisa mudou em minha vida.  Se não atingi ainda o peso que eu queria, eliminando os quilogramas todos que eu sonhava ver perdidos, ganhei muito com a decisão de colocar a Banda Gástrica.  A primeira lição que me vem à mente é a de ter aprendido que minha obesidade não é um "castigo divino".  Era fácil demais para mim - sobretudo sendo espírita - depositar em algo exterior as razões de meu excesso de peso.  Pensava que eu era gordo por "karma" de vidas passadas, por erros de criação de meus pais, por culpa dos colegas de segundo grau que me chamavam de "gordinho" mesmo quando eu, de fato, não era (tenho fotos para provar! [risos])... até mesmo razões de ordem intelectual eu construí para tentar explicar minha obesidade: eu era assim porque não gostava do ambiente das academias de ginástica, porque achava que era perda de tempo fazer exercícios físicos quando poderia estar apreciando um bom livro...  A Banda Gástrica fez-me ver que eu me alimentava demais, muito além do que eu precisava, e que esta era a causa primeira de meus problemas de saúde - e não meus pais, meus amigos ou o mundo espiritual!  Mesmo nos primeiros tempos depois da Banda Gástrica, alimentando-me de porções diminutas de líquidos e purês, não desfaleci ou senti fraqueza, consegui levar minha vida adiante, não fiquei menos culto ou inteligente por conta disso.  Em outras palavras, descobri que posso sobreviver comendo porções menores, alimentos menos calóricos no meu dia-a-dia e até mesmo que posso comer aquilo que gosto de vez em quando, sem passar por privações nem descontar na comida as minhas frustrações.

Esta foi, aliás, minha segunda lição aprendida: a Banda Gástrica levou-me a me tornar mais atento com minha saúde.  O procedimento cirúrgico é simples, mas exige do paciente uma certa disciplina no pós-operatório que é, aliás, a frustração de muitos que se submetem ao procedimento esperando milagres.  A Banda Gástrica é um poderoso auxílio para que nós, obesos, saiamos da "bola de neve" da obesidade - ficarmos deprimidos porque estamos obesos e para aplacar a depressão, comermos mais e mais, que, via de regra, é um comportamento comum aos que passam por esse problema.  Eu, pelo menos, descobri que consigo ser feliz, divertir-me, ir a um restaurante com amigos ou a uma festa sem ter que comer as quantidades enormes de comida que eu antes comia.  Aprendi a saborear melhor os alimentos que antes eu ingeria muitas vezes sem nem sentir ao certo o sabor.  A Banda Gástrica levou-me a ser um pouco mais disciplinado e "antenado" com minha saúde; isso levou-me ao consultório de um psicólogo, Rafael Homem de Carvalho, a quem sou imensamente grato por me ajudar a descobrir o quanto eu enganava a mim mesmo buscando nos outros as razões para as minhas atitudes.  Aprendi, com a ajuda profissional desse competente psicólogo, que as decisões estão em minhas mãos e que eu mesmo precisava tomar as rédeas da situação.

Uma terceira lição que aprendi com a Banda Gástrica é que as pessoas sem sobrepeso que eu olhava com inveja e tristeza (por minha condição de obeso), não o são por obra da divindade... Elas são assim, salvo raras exceções, por conta de uma série de hábitos e procedimentos que incorporaram em suas vidas - e que eu não incorporei à minha.  Hoje estou conseguindo levar adiante um treinamento físico que está dando visíveis resultados (hoje comprei para mim uma bombacha e descobri que estou vestindo quatro números menos do que quando comecei as aulas na academia de ginástica, há dois meses!), e isso graças a eu ter fixado dias e horários certos para as atividades físicas.  Sem esse compromisso, para mim nunca funcionou, todas as tentativas anteriores de engendrar uma atividade física foram um estrondoso fracasso que eu sempre atribuia ao meu pouco talento para o esporte.  Balela.  Tomei gosto pelo exercício físico, que nas primeiras semanas era uma tortura e que hoje são minha forma de relaxamento de meus dias de intensos estudos no Mestrado.  Hoje entendo o porquê de alguns sentirem necessidade e prazer na atividade física - e o que é melhor, vejo que isso em nada é incompatível com desenvolver uma vida intelectual igualmente intensa.  Observo, também, que estou hoje me alimentando de quantidades infinitamente menores (e falo sem exageros, eu comia demais!) que antes da Banda Gástrica - e é com um certo orgulho que percebo que como até menos que alguns amigos que são - e sempre foram - magros.  E ter conseguido romper essa dificuldade minha, essa tendência a ver a comida sempre como prêmio pelas coisas boas que me aconteciam ou compensação pelos momentos de tristeza e frustração, é uma vitória que só posso atribuir às mudanças todas que a Banda Gástrica me trouxe.

Daí que não posso pensar de outra forma: eu faria tudo novamente.  Se hoje ainda sou obeso, e as perdas não foram significativas comparativamente, estou conseguindo reverter o quadro por meu próprio esforço, algo impensável antes da cirurgia.  Imaginem só depois que eu fizer mais um ajuste da Banda com o Dr. Siegfried!


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28/07/2006
Estou desanimando...
Eis o motivo de meu afastamento deste registro virtual: estou desanimando.  A banda gastrica parece inexistir e quase retomei o peso que tinha quando da primeira cirurgia.  Atualmente estou seguindo uma dieta hipocalórica e, para minha surpresa, estou engordando novamente - ainda que cortando alimentos muito caloricos e comendo  muita salada...

Como mais uma tentativa de manter-me na batalha, irei a um endocrinologista pela primeira vez em minha vida, para ver se, afinal de contas, minha obesidade tem raiz em algum problema glandular mesmo.  Sei que existe uma ajuda muito grande de minha ansiedade, do volume de trabalho, do fato de eu ter mais uma vez interrompido as atividades fisicas, mas a dieta que eu estou a seguir faria, de algum modo, eu perder peso - e por mais que eu tenha efetivamente diminuido no inicio da dieta, agora estou a engordar novamente...

Que triste esta sina minha de viver eternamente lutando contra a obesidade!  Mas seguirei buscando um caminho, o qual inclui um retorno ao meu cirurgião para ver se a banda gástrica está com algum problema...

Registrado por Robertson Frizero Barros at 21:33 BRST
Updated: 28/07/2006 21:34 BRST
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06/04/2006
Uma nova tentativa
Tudo de novo?

Semana passada estive em uma nova consulta com o doutor Sigfried Boechtter, com quem eu e minha esposa nos consultamos desde o momento em que decidimos pela cirurgia. Tatiana passou por momentos complicados no final do ano passado e precisou afrouxar por completo a banda; eu fiz um ajuste um pouco antes dela, e parece que os efeitos foram menores que o desejado.

Na semana que vem, Tatiana e eu iniciamos uma bateria de exames - de sangue e endoscopia - para ver como andam as nossas bandas, pois ela precisa ajustar novamente a dela e eu preciso verificar como anda a minha - e para tal terei que ser submetido a um exame com o uso de videolaparoscopia; caso haja problemas realmente com a banda, talvez eu tenha que sofrer uma nova cirurgia, colocar uma nova banda, ou seja: tudo de novo. Mas, se preciso for, farei: creio que o processo foi positivo para mim e fui longe demais para voltar agora.

Afora isso, continuo na luta de sempre para controlar a comida que consumo, sobretudo as quantidades, que parecem aumentar nos momentos de maior nervosismo, como agora que estou em plenos estudos de Mestrado, somados ao curso de especializacao e ao trabalho do dia a dia... Mas sei que quem deve cuidar disso sou eu mesmo, que a poucas pessoas foi dado o dom de compreender os problemas alheios. Por sorte, conto com amigos sinceros que me apoiam em minha batalha contra a obesidade desde sempre.

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24/02/2006
N?o se trata da banda
Cada vez mais me conven?o de que o problema n?o est? na banda, mas em mim.

? dif?cil admitir os pr?prios erros, defeitos, disfun??es. Mas cada vez mais me conven?o de que o rev?s que sofro em meu tratamento, o fato de ter engordado novamente at? 130kg (no dia da cirurgia, h? dois anos e meio, tinha 134kg e baixei a 107kg durante o tratamento) e agora ter conseguido reduzir a 125kg novamente ? fruto de minha rela??o conflituosa com a comida e, por que n?o dizer, comigo mesmo.
De f?rias, mesmo sem estar de dieta e virtualmente livre para comer de tudo, consegui baixar cinco quilos em cerca de vinte dias. O que mudou? Eu estava mais tranq?ilo, e a calma fez com que eu n?o precisasse visitar tanto a geladeira, ainda que ela estivesse liberada e repleta de coisas gostosas para comer. Mas, incrivelmente, meu corpo n?o as pedia.

Assim tenho, uma vez mais, a confirma??o de que n?o ? a fome que governa minha forma de se alimentar, mas a compuls?o e a ansiedade. Naqueles dias de f?rias, dediquei-me a escrever e a trabalhar com madeira - uma atividade que tem profundos significados afetivos para mim, pois o meu av?, que eu tanto amava, era marceneiro de profiss?o e ensinou-me a gostar do cheiro da madeira, da possibilidade de mold?-la e trabalh?-la, do prazer de envernizar e pintar, de compor pe?as que ser?o ?teis, e muitas delas usadas por pessoas a quem amamos. E o resultado de minha dedica??o a essas duas atividades ? que eu esquecia da hora das refei??es, ou simplesmente passava longos per?odos sem comer nada.

Sinto que a banda ainda me oferece resist?ncia; n?o s?o todos os alimentos que consigo comer, e certas quantidades ainda me s?o proibitivas. N?o como, a bem da verdade, nem metade do que eu comia antes da cirurgia. Isso me deixa aliviado, pois na ?ltima vez que estive com meu m?dico ele me falou na necessidade de talvez trocar a banda - o que significaria retomar toda aquela novela de dois anos e meio atr?s.

Tatiana tamb?m levou um susto no final do ano que me deixou ainda mais arisco ? possibilidade de uma nova coloca??o de banda: ela fez, em dez dias, tr?s procedimentos cir?rgicos, sendo que os dois ?ltimos foram em dias seguidos! Primeiro, o m?dico marcou um ajuste, mas ao iniciar o procedimento viu que seria imposs?vel realizar o ajuste pois o duto do est?mago, logo acima da banda, estava obstru?do por excesso de fibras. A? estava a explica??o porque a Tatiana vomitava tanto nos ?ltimos tempos, tinha refluxo e sofria com certos alimentos: n?s n?o podemos, depois de colocada a banda, abusar de fibras e alimentos como cereais - e para emagrecer mais depressa n?s est?vamos usando as famosas barrinhas de cereais para tapear a fome dos intervalos da manh? e da tarde! O que parecia ser bom, foi p?ssimo para ela! Dez dias depois, foi marcado novo ajuste que, dessa vez, foi realizado. Mas j? depois do procedimento, em casa, na manh? seguinte, Tatiana come?ou a reclamar de dores horr?veis e, por fim, telefonamos para o m?dico que marcou um proxedimento de emerg?ncia naquela mesma tarde. Tatiana passou uma noite apenas internada no Hospital Moinhos de Vento, o procedimento deu tudo certo e a dor sumiu de imediato, mas o susto foi grande.

Por que ser? que nos boicotamos tanto? Quando ser? que conseguiremos nos livrar deste inimigo oculto e destruidor - nossa forma t?o torta de ver a comida como v?lvula de escape, ref?gio, consolo?

Registrado por Robertson Frizero Barros at 15:55 BRT
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26/01/2006
Conserto
Nada de barrinha de cereal!

Tatiana fez ontem mais um reajuste da banda gastrica. Semana passada, ela foi ao hospital para ser submetida ao mesmo procedimento, mas o medico n?o pode realiza-lo e por um motivo para nos surpreendente: seu estomago estava inchado e o procedimento n?o pode ser feito - e a raz?o do reves foi o fato de que Tatiana estava se alimentando, entre as refeic?es, com barrinhas de cereal (a nova moda para os que querem reduzir peso e trocar a comilanca entre refeic?es por lanches mais saudaveis). O problema e que com a banda gastrica n?o podemos nos alimentar com fibras em excesso. Bem, vivendo e aprendendo...

At? mesmo seus problemas com refluxo terminaram!

O melhor de tudo e que Tatiana esta bem, apesar dos desconfortos habituais de qualquer pequena cirurgia. Mas creio que este ajuste fara um grande bem para ela.

Registrado por Robertson Frizero Barros at 09:49 BRT
Updated: 26/01/2006 09:54 BRT
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05/01/2006
Aos poucos
Passo a passo.

A dieta proteica - entenda-se isso por mais carne, queijos e ovos, mais saladas e quase nenhum carboidrato - mostra resultados: estou me alimentando bem e sem fome, tenho sentido as medidas diminuindo por meio de minhas roupas. Agora que retomo as atividades esportivas depois das festas de ano novo, tenho ainda mais motivos para acreditar que irei retomar o bom combate.

Somado a isto, volto na semana que vem a buscar meu tratamento com o Dr. Sigfried, no intuito de verificar se existem problemas com minha banda. Tenho tentado cuidar de todos os lados deste meu problema.

Desejem-me sorte!

Registrado por Robertson Frizero Barros at 15:37 BRT
Updated: 05/01/2006 15:43 BRT
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